Segunda-feira, 12 de Maio de 2008

Sobre as coisas que eu não vi antigamente.




E aí, sem mais nem menos, você acorda numa manhã quente e percebe que o seu coração bate de uma maneira diferente.
A xícara de café parece queimar a língua que você tanto queria ter nos lábios de um certo alguém, as suas mãos tremem de uma forma estupidamente desconcentrada, e por um momento, você pensa que voltou a ter 14 anos. Seria capaz de desenhar corações nas páginas de um dirário rosa e fofinho que você não tem, e de colocar alguma baladinha no último volume do seu rádio. Mas aí você se lembra que tem que ir trabalhar, que não pode passar a manhã toda saltitando entre os cômodos da casa, e que a sua mãe já está perguntando o motivo desse sorriso enorme no rosto.



Aí, ok, você veste uma roupa que faz com que você aparente ter mais responsabilidade do que realmente tem, pega um trânsito desgraçado e finge que tudo o que te importa no mundo é pagar as contas do seu cartão de crédito no final do mês. Mas não, você gostaria de estar usando um vestidinho rosa-pink-cheguei nesse exato momento. Em que as pessoas ao seu redor falam sobre a bolsa de valores e o caso Isabella Nardoni. Na verdade, você não está nem um pouco interessada também no que andam falando sobre as eleições dos Estados Unidos. Contrariando os fatos, você apenas se sente verdadeiramente comovida ao saber pela sua avó, que a sua prima de 2º grau negou o pedido de casamento e que o noivo anda se sentindo uma merda desde então. E aí você só consegue pensar que o mundo é cruel e que esse cara deveria ser considerado um Lord mesmo. E ver sua avó concordando com você, a faz pensar que você já está exagerando nesse 'estado de espírito mulherzinha-meiga'.



Tudo se repete ordenadamente. O despertador, a tv sem som, a manhã ensolarada, o trânsito filha da mãe, a camisa comportada e a vontade provocante que você tem de vestir apenas duas peças de roupa e falar dele o dia todo. Assim, como se não tivesse pressa para nada e como se valesse a pena todo o esforço de ter o coração em chamas dentro do peito. Você sabe que há grandes chances de mudar de idéia depois, mas prefere entregar-se agora ao aconchego que isso provoca em si mesma.



Algum tempo passa, e quando não dá mais para contar nos dedos há quantos dias ele disse que você é linda, você pega o telefone, vai até o nomezinho dele na sua agenda de telefone e espera que ele atenda animado, dizendo que esperava pela sua ligação.Depois do 2º toque ele realmente atende animado, diz coisas que faz com que você queira fotografá-lo numa tarde de domingo, e tem a impressão de que a qualquer momento vai dar uma daquelas gargalhadas de quem está apaixonado. Vocês marcam para 3 dias depois e nas duas horas que consegue dormir na noite anterior, sonha que está vestida de branco. Dá risada ao se lembrar que nunca foi romântica e se sente adoravelmente meiga.



E não, não vai vestida com nenhum vestido rosa-pink-cheguei. Aliás, antes de sair se olha no espelho e tem a certeza de que nunca esteve tão bonita.




Vocês conversam como um casal, se olham como um casal, ele paga a conta como se fossem um casal e uma senhora diz que vocês fazem um lindo casal.



O único problema, é que por mais que estejam bem próximos, ele não tenta de beijar. Você cruza e descruza as pernas e ele sorri. Você esbarra a mão na dele, e ele desvia o olhar, e então você vai até o banheiro checar se está tudo bem com a roupa e a maquiagem e volta certa de que ele deve ser muito tímido.



Já está tarde e vocês irão se despedir. Nada aconteceu e você pensa que agora ele irá se aproximar um pouco mais.Ele se aproxima. Você sorri. Ele diz: 'Acho que você entendeu errado. Desculpa, mas eu sou gay'.



Você volta para casa compreendendo, enfim, porque é que a sua avó era tão feliz em seu tempo.



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Para ler ouvindo: Katy Parry - Ur so Gay.

Sábado, 10 de Maio de 2008

Take a sad song and make better.

video

O passado é um refúgio sereno e controlado.

'A saudade é um desejo que, quanto mais fundo, mais impossível é de realizar.


(... Minha saudade é diáspora. São os amigos fundamentais que você teve um
dia, que você amou tanto, e que hoje nem sabe por onde andam, o que fazem,
quem são. E você nunca mais verá.Saudade é esse sentimento de cortante de perda, de desagregação, de desconexão,
de amputação das coisas que lhe são mais caras.)


Saudade é o irmão que você amava e que se foi para nunca mais voltar. É a
memória do seu pai ficando a cada dia mais distante, mais difusa, menos real.
Saudade é o desejo de poder abraçar de novo sua avó, lhe dar um beijo e sentir
outra vez a maciez dos seus cabelos. Saudade é a dor sem chance de solução de
todas essas impossibilidades. Saudade não é só a falta dos outros. É a falta da
gente mesmo, do que fomos, dos grandes momentos porque passamos. É o vazio
deixado por um tempo que não existe mais, quando várias portas que se
fecharam com o passar dos anos ainda estavam abertas.'

. Por Adriano Silva. Escritor, jornalista e autor do romance 'Homem sem Nome'.



- Meu avô se foi na noite de quarta-feira, dia 7 de Maio.

Sei que o amor que nos une nunca morrerá. Sinto-me grata por ter o conhecido, e agradeço de verdade à todos que me desejaram/desejam força.


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Quarta-feira, 7 de Maio de 2008



'E dentro disto, você me diria que entre teu abraço e meu calor ficaríamos bem.
Que nada seria tão amargo a ponto de machucar meus lábios até o dia seguinte, e que coisa alguma seria tão escura para que a minha luz se tornasse opaca. Para que eu deixasse de ter vida pulsando em meus dramas e complicações.Você me aceitaria inteira pois inteira eu sou mesmo quando você me olha de lado em sua discreta confusão.

E, ai, meu amor. Eu grito baixinho porque eu sei viver sem você ao meu lado. Porque enquanto eu te amo calada você é um reflexo na moldura do meu porta-retrato. Porque amor é pensar que se você estivesse aqui, nesse instante, diria que sim. E apenas diria que sim. Um sim inteiro e vermelho que em contato com o calor do meu corpo e seu abraço, significaria apenas uma coisa: eu definitivamente não estou sozinha.'

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{ Gabi says:
Isso aí que escrevi não é para alguém em especial, é só sobre o momento.
* says:
sobre o nao estar sozinha?
Gabi says:
sobre muita coisa.}

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Dia difícil.
Ontem o meu avô foi para o hospital e depois de um exame que revelou um pulmão todo comprometido, não teve como voltar para casa.

Noite péssima. Um silêncio ensurdecedor. Horas e horas de uma aflição concreta. Saudade feito caco de vidro. Vazio no peito, como se tivessem arrancado o mundo de dentro do meu âmago. A certeza de que nada seria igual a partir do dia 6 de Maio de 2008.

Hoje meu pai, minhas tias e meu tio se reuniram e foram visitá-lo no hospital. Ele não pode falar, estava com os olhos esbranquiçados e os pés afastados um do outro. Agitado. Meu pai disse em seu ouvido que estavam lá e para que ele ficasse tranquilo. Salientou o quanto ele é amado, e meu avô se aquietou em seguida.

Os médicos queriam entubá-lo, mas foi decidido pela família que não é o melhor.
Ele foi sedado há poucas horas atrás. Sabemos o que vem em seguida. Enquanto ele dorme.




Meus dias alaranjados de Outono tornaram-se brancos de inverno antecipado.
Não sou eu com meu imenso amor pela melhor pessoa que poderia conhecer. [Meu orgulho, meu par, meu ídolo e meu laço vermelho de amor...] São todos os reflexos que ele espalhou ao longo de 71 anos e todas as realizações que fotografou e desenhou em nossos laços sangüineos.


Esta noite está ardendo e acho que não irei dormir.
Porque meu pai está pálido e cansado, minhas tias estão desacreditadas e eu, eu estou nua de mistérios, cara-de-pau e sensível demais para dizer algo pela metade; para freiar expressões.

Talvez esse seja o meu normal.







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Segunda-feira, 5 de Maio de 2008

Não há silêncio que me faça calar.

'... Qualquer coisa que doa é banal perto disto. Saudade é tempestade e abraço é cobertor.'

5 de Maio de 2008.

'Os remédios estão gritando: 'Você precisa de mim para suportar. Vocês precisam de mim!'
E eu juro. Eu juro que mataria esta certeza, se pudesse. A certeza de que ar, Sol e som não são o suficiente agora. O bastante para encher seu pulmão de calor e de sentimento novo.
Queria dizer o oposto. Fazer com que as horas penduradas em meu pulso escutassem o que eu sinto. Que soubessem responder e que pudessem compreender meu pranto.
Estou na porta de casa. Salto fino em ruas esburacadas. Saudade desenhada no rosto como um desenho inocente e infantil, e no bolso palavras para sussurrar quando lá chegar:


"Agradeço o dom e o som com que desde cedo amaciou os meus ouvidos. Agradeço pela cor rosada nas bochechas, feito as de sua mãe. E agradeço o laço sangüíneo e vermelho que explode em minhas veias e que vem de você. Agradeço pela corrente veroz que invade meus sentidos, instintos e amores. E por essa ser a fonte de luz em meus olhos.

Peço para que os seus gemidos descalcem o silêncio atroz e para que o frio da manhã respeite as feridas que já não conseguem mais se fechar.
Peço pelo perigo da vida e pelo risco que dá vida".

Agradeço, vovô, pelo laço vermelho de amor.'




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Sexta-feira, 2 de Maio de 2008

Free Bird.




'Hoje, meu amor, o que eu tenho é a coragem de um pássaro que voa em céu de chuva'.
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Segunda-feira, 28 de Abril de 2008

'... E então você dobra os joelhos e se senta na frente de alguém, com a expressão mais suave que conhece em si mesmo, e ouve exatamente tudo o que a pessoa tem para dizer.
Ouve ela falar sobre dores, amores e sobre probleminhas do cotidiano. E vc presta atenção no que ela fala de verdade. E ela sabe disso.
Mas no meio da conversa vc percebe que ela não ouviu uma palavra do que vc disse de verdade. Ela só ouviu o tom da voz que saía de si mesma.'