E aí, sem mais nem menos, você acorda numa manhã quente e percebe que o seu coração bate de uma maneira diferente.
A xícara de café parece queimar a língua que você tanto queria ter nos lábios de um certo alguém, as suas mãos tremem de uma forma estupidamente desconcentrada, e por um momento, você pensa que voltou a ter 14 anos. Seria capaz de desenhar corações nas páginas de um dirário rosa e fofinho que você não tem, e de colocar alguma baladinha no último volume do seu rádio. Mas aí você se lembra que tem que ir trabalhar, que não pode passar a manhã toda saltitando entre os cômodos da casa, e que a sua mãe já está perguntando o motivo desse sorriso enorme no rosto.
Aí, ok, você veste uma roupa que faz com que você aparente ter mais responsabilidade do que realmente tem, pega um trânsito desgraçado e finge que tudo o que te importa no mundo é pagar as contas do seu cartão de crédito no final do mês. Mas não, você gostaria de estar usando um vestidinho rosa-pink-cheguei nesse exato momento. Em que as pessoas ao seu redor falam sobre a bolsa de valores e o caso Isabella Nardoni. Na verdade, você não está nem um pouco interessada também no que andam falando sobre as eleições dos Estados Unidos. Contrariando os fatos, você apenas se sente verdadeiramente comovida ao saber pela sua avó, que a sua prima de 2º grau negou o pedido de casamento e que o noivo anda se sentindo uma merda desde então. E aí você só consegue pensar que o mundo é cruel e que esse cara deveria ser considerado um Lord mesmo. E ver sua avó concordando com você, a faz pensar que você já está exagerando nesse 'estado de espírito mulherzinha-meiga'.
Tudo se repete ordenadamente. O despertador, a tv sem som, a manhã ensolarada, o trânsito filha da mãe, a camisa comportada e a vontade provocante que você tem de vestir apenas duas peças de roupa e falar dele o dia todo. Assim, como se não tivesse pressa para nada e como se valesse a pena todo o esforço de ter o coração em chamas dentro do peito. Você sabe que há grandes chances de mudar de idéia depois, mas prefere entregar-se agora ao aconchego que isso provoca em si mesma.
Algum tempo passa, e quando não dá mais para contar nos dedos há quantos dias ele disse que você é linda, você pega o telefone, vai até o nomezinho dele na sua agenda de telefone e espera que ele atenda animado, dizendo que esperava pela sua ligação.Depois do 2º toque ele realmente atende animado, diz coisas que faz com que você queira fotografá-lo numa tarde de domingo, e tem a impressão de que a qualquer momento vai dar uma daquelas gargalhadas de quem está apaixonado. Vocês marcam para 3 dias depois e nas duas horas que consegue dormir na noite anterior, sonha que está vestida de branco. Dá risada ao se lembrar que nunca foi romântica e se sente adoravelmente meiga.
E não, não vai vestida com nenhum vestido rosa-pink-cheguei. Aliás, antes de sair se olha no espelho e tem a certeza de que nunca esteve tão bonita.
Vocês conversam como um casal, se olham como um casal, ele paga a conta como se fossem um casal e uma senhora diz que vocês fazem um lindo casal.
O único problema, é que por mais que estejam bem próximos, ele não tenta de beijar. Você cruza e descruza as pernas e ele sorri. Você esbarra a mão na dele, e ele desvia o olhar, e então você vai até o banheiro checar se está tudo bem com a roupa e a maquiagem e volta certa de que ele deve ser muito tímido.
Já está tarde e vocês irão se despedir. Nada aconteceu e você pensa que agora ele irá se aproximar um pouco mais.Ele se aproxima. Você sorri. Ele diz: 'Acho que você entendeu errado. Desculpa, mas eu sou gay'.
Você volta para casa compreendendo, enfim, porque é que a sua avó era tão feliz em seu tempo.


