Falo minha língua, meus temores existem debaixo d'água, vivi um circo de locuras antes de chegar na estrada, meu carro tá com a traseira quebrada, escuto Bossa no domingo, chuva é abraço e marca. Eu sempre corri. E assim cheguei até aqui.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Uma banda de Oxford, um café puro e troco pra 50. [repeat]



Naquela loja de cd's do centro da cidade, enquanto os meus olhos deslizavam sobre os discos de vinil, aquele cara abriu a porta de vidro com os olhos enfiados numa expressão melancólica. Eu não sei mesmo porque o ruído da porta me fez olhar para trás e observar quem se aproximava. Na verdade, neste dia, eu estava especialmente disposta a não prestar atenção em nada que não fossem os discos que eu procurava, e o cheiro do café forte que vinha do fundo da loja. Café forte do jeito que eu sempre gostei, queimando na língua as frases ainda não escritas. Mas o cara estava lá, e não deu para não reparar nas olheiras que ele carregava debaixo dos olhos. Quase como se estivesse tentando dizer: 'Me dê um cd de Oxford gravado em 92, um café e troco pra 50.'
Eu não estava alí para prestar atenção na conversa dele com o vendedor, no livro que ele segurava, ou na maneira despretenciosa com que ele disse: 'Quero só o The Bends hoje.' E pensei que ele tem mesmo cara de quem ouve Radiohead. Isso enquanto fingia ler a contracapa de um disco que eu já tenho. Eu não estava lá para me distrair com os óculos dele, mas, mesmo assim, não deu para não perceber que ele preferiu o café sem açúcar. E ainda comentou com o atendente que gosta do café forte e puro. Bem assim ele disse. Eu prestei atenção. Quer dizer, enquanto olhava a mesma pilha de discos pela segunda ou terceira vez.
Engraçado como algumas pessoas conseguem demonstrar facilmente o tipo de música que gostam em pequenas atitudes. Os tipos de pessoas que conseguem desenhar no rosto a capa do cd preferido. É como ter certeza que durante o verão dos dezenove anos, o cd que mais tocou foi aquele no Nirvana. É claro que tem aquelas que enganam. Você olha e pensa que a pessoa deve ter a discografia do The Cure, e, quando vai ver, ela ainda pensa que Boys don't cry é dos Smiths.
E foi mais ou menos assim que eu tive vontade de conversar com esse cara que segurava um livro de capa verde, bebia um café forte e puro e assobiava uma das minhas músicas preferidas. Cara de chato, camiseta de manga comprida e óculos de armação fina. Perdido no mesmo mundo que eu, com algum mistério nas mãos. Peguei meu café e me sentei ao lado da janela. Só para ver a chuva da cidade cinza e os carros com os vidros fechados. Três da tarde de uma sexta-feira em que eu saí para comprar um disco e acabei comprando só um café. Um copo médio que acompanhava observações pessoais e os gostos musicais de um estranho. Tudo alí, bem posicionado. Ele em pé assobiando e eu pensando quantas cartas de amor são escritas e depois rasgadas ao som de Damien Rice. Que das coisas que a escola não ensina, grandes lições estão fracionadas em encartes de cds. E que as respostas para um amor mal resolvido podem não estar em discussões passionais, mas no lado B de um disco de 72.

Tomei o penúltimo gole de café e apoiei meu queixo na mão. E aí, antes que eu me desse conta, o cara de cabelo castanho escuro pediu licença, se sentou na minha frente e surpreendeu o inevitável:
'Você já tem todos aqueles cd's dos Beatles, certo?'


4 comentários:

Junkie careta disse...

Sinceramente Gabrielle,

Não sei onde teu talento vai te levar. Eu sou o Mr."some-e-aparece", mas, todas as vezes que retorno, sou sempre surpreendido pela sua escrita original, às vezes pela sua estética contemporânea,às vezes pela sua veia romântica(apesar da sujeira, isso é tão visível...) às vezes beat,às vezes simbolista, às vezes objetiva,crua, comum como um copo de vodca, um cigarro aceso, água gelada, whisky ou martini num pub às 2 da manhã, à meia luz. Você é realmente um talento.

Esse texto é especialmente importante, porque foi o seu primeiro texto que tive contato

É claro que eu, me sinto empurrado para ler todos os posts anteriores pra saciar a fome de beleza.

Voltei a vida intelectual mais uma vez, depois de um longo e tenebroso inverno de trabalho e estudo. Retornei com um poema para ser apedrejado.

É claro que sua observação é especial pra mim.

Se tiver um tempinho,apareça.

Grande bjo baby

Melian.arwen disse...

"e eu pensando quantas cartas de amor são escritas e depois rasgadas ao som de Damien Rice"

Tu és incrivel...

Paulo disse...

Viajei...

Sérgio Luyz Rocha disse...

Você me surpreende. Quando eu acho que não vai ter solução você resolve só tomar um café e descobrir que amores mal resolvidos têm solução no lado B de um disco de 72 - Gabriele, fico aqui imaginando multidões de apaixonados correndo aos velhos sebos do Centro ou desencaixotando os vinis no porão, loucos procurando a solução...

Um dos melhores textos que li recentemente...

Valeu!

Ah! Mas, você tem mesmo todos aqueles CD's??

'Quando a alma é livre,não tem filho da puta que segure' - Lobão
'O ímpeto de crescer e viver intensamente foi tão forte em mim que não consegui resistir a ele. Enfrentei meus sentimentos.
A vida não é racional; é louca. Quero paixão, prazer, barulho, bebedeira, e todo o mal. Quero ouvir música rouca, ver rostos, roçar em corpos, beber um Benedictine ardente. Quero conhecer pessoas perversas, ser íntima delas.
Quero morder a vida, e ser despedaçada por ela. Eu estava esperando. Esta é a hora da expansão, do viver verdadeiro.
Todo o resto foi uma preparação. A verdade é que sou inconstante, com estímulos sensuais em muitas direções.
Fiquei docemente adormecida por algum tempo, e entrei em erupção sem avisar'
- Anais Nïn
Para quem me odeia:

Sei que você vive falando de mim por aí sempre que tem oportunidade, e esse tipo de propaganda boca a boca não tem preço. Ainda mais quando é enfática como a sua - todos ficam interessados em conhecer uma pessoa que é assim, tão o oposto de você.

- Fernanda Young